o que é automutilação

Automutilação: o que leva uma pessoa a se ferir?

O que é automutilação? Por que uma pessoa se machuca? Como ajudar alguém que enfrenta esse transtorno?


Conteúdo abordado neste texto:

  • O que é automutilação
  • Sinais de alerta de automutilação
  • Causas da automutilação
  • Condições de saúde que podem estar associadas ao comportamento de automutilação
  • Como lidar com a automutilação
  • Livros que abordam automutilação

Precisamos falar sobre automutilação. Afastar mitos — como imaginar que “é coisa de gótico” ou exibicionismo — e entender o que a conduta realmente tem a contar.

Um primeiro ponto, que atesta a necessidade de atenção sobre o assunto, são as impressionantes estatísticas.

Segundo dados divulgados pela Sociedade Internacional para o Estudo de Autolesão (ISSS), cerca de 18% dos jovens afirmam ter praticado automutilação, ao menos uma vez na vida.

Como o comportamento ocorre em segredo e muitos jamais confessam as agressões autoinfligidas, é possível que o número de ocorrências seja ainda maior do que sugerem as pesquisas.

Mas por que alguém provoca ferimentos no próprio corpo? O que leva à repetição de tal conduta? A automutilação está relacionada a transtornos mentais, como depressão e ansiedade? É possível ajudar uma pessoa nessa situação?

Confira esclarecimentos sobre essas e outras questões, no texto a seguir.

O que é automutilação?

A automutilação — ou autolesão — é caracterizada pelo comportamento de agressão intencional ao próprio corpo, sem intenções suicidas.

Cortes, perfurações, queimaduras, arranhões e contusões são as expressões mais comuns desse tipo de violência.

Abdômen, braços, pernas e couro cabeludo são os principais focos dos ferimentos.

De acordo com informações disponibilizadas pela ISSS, o problema atinge todas as classes sociais, idades, etnias e gêneros.

No que diz respeito à faixa etária de maior risco, a adolescência se destaca.

Os primeiros episódios costumam ocorrer entre os 12 e 15 anos de idade, com probabilidade de se tornarem mais frequentes na faixa dos 20 anos.

No entanto, é possível que os danos sejam provocados já na infância e persistam ao longo da idade adulta.

As pesquisas também apontam que o número de incidências é um pouco maior entre meninas e jovens que se identificam como transgêneros ou bissexuais.

Sinais de alerta de automutilação

Alguns comportamentos e evidências físicas podem ajudar a perceber que uma pessoa está provocando automutilações. Listamos os sinais mais comuns:

  • cicatrizes e hematomas inexplicáveis;
  • uso de mangas longas e calças, mesmo em dias quentes (para ocultar lesões);
  • manutenção de objetos cortantes a fácil acesso;
  • alegações de acidentes ou descuidos frequentes para justificar machucados;
  • feridas que não cicatrizam;
  • couro cabeludo com falhas e danos (geralmente em áreas menos visíveis, como próximo à nuca);
  • comportamento impulsivo;
  • isolamento social;
  • instabilidade emocional.

A atenção a esses indícios pode ser crucial para intervenção oportuna de pais, amigos, educadores ou psicólogos.


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Quais os motivos desencadeadores das autolesões?

A prática de automutilação, muitas vezes, está relacionada a sentimentos de inadequação, solidão e angústia.
A prática de automutilação, muitas vezes, está relacionada a sentimentos de inadequação, solidão e angústia.

Não há uma resposta única para essa questão.

Inclusive, os motivos podem variar, no transcorrer do tempo. Ou seja, quando a pessoa experimenta o autodano como válvula de escape, em uma dada situação, pode recorrer ao procedimento em circunstâncias diversas, para obter outras formas de alívio.

Os relatos permitem observar que automutilação está relacionada a sentimentos de:

Também pode se a apresentar como sintoma de perturbações como:

  • bullying;
  • abuso sexual;
  • luto por parente ou amigo próximo;
  • dificuldades para aceitar a própria sexualidade;
  • problemas de relacionamentos.

“A autodestruição pode ser uma forma de comunicação para aqueles que ainda não têm maneiras de domar seus conflitos e sentimentos internos angustiantes e que ainda não podem pedir apoio a outros”. — James A. Chu

Em função da dificuldade de expressar confusões mentais ou pensamentos negativos por meio de outras manifestações, as automutilações, portanto, acabam servindo como modo de traduzir as dores psicológicas.

É importante entender que, ao sentirmos dores físicas, nosso sistema nervoso reage, liberando opioides endógenos, como as endorfinas, visando um efeito anestésico natural.

Isso significa que o ferimento autoprovocado pode, de fato, trazer uma espécie de entorpecimento temporário, amenizando dores que não estão na carne — mas migram para ela, numa transferência de foco.

Contudo, o efeito neuroquímico passa. Já as feridas emocionais, ficam.

Podem, inclusive, se agravar. Pois, geralmente, quem se machuca acaba invadido por profunda sensação de vergonha.

Tanto que o comportamento padrão é o silêncio sobre os atos e tentativas de ocultar cicatrizes, com roupas que escondam o corpo.

Em certa medida, a promoção do alívio passageiro, gerado pela resposta do sistema nervoso à dor, pode ser responsável pela repetição dos danos. Porém, essa conclusão seria muito reducionista.

O fato é que as automutilações tomam o lugar de uma voz, que não se encontra. De uma decisão, que não se consegue elaborar. De um significado de vida, que se faz ausente.


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A automutilação é um sintoma de outros transtornos mentais?

É possível que as autolesões estejam associadas a distúrbios mentais como:

Contudo, de acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), a automutilação é um transtorno em si, não necessariamente um sintoma de outro problema psicológico.

A avaliação do quadro deve ser realizada por psiquiatra e psicoterapeuta, apto a compreender as motivações e especificidades de cada caso.

Essa compreensão é crucial para que se encontre tratamento oportuno, sem que se corra o risco de ignorar uma condição mental subjacente.

Como ajudar alguém a parar de se automutilar?

Ser um bom ouvinte é a melhor atitude que você pode ter, se quiser auxiliar alguém que passa pelo problema.

Permita que a pessoa fale sobre suas emoções, sem prejulgamentos ou fazê-la se sentir culpada.

Incentive a busca por tratamento psicológico. Afinal, o profissional da saúde saberá guiá-la no processo de autoconhecimento e descoberta de recursos para lidar com os conflitos internos.

Além disso, existem algumas técnicas que você pode sugerir ao amigo ou familiar que se autolesiona. Proponha que, ao sentir a vontade de se machucar, ele tente:

  1. Usar um cubo de gelo, esfregando-o na pele, ao invés de usar um objeto cortante.
  2. Rabiscar um papel com tinta vermelha.
  3. Gritar num travesseiro.
  4. Socar almofadas.
  5. Tomar um banho frio.
  6. Escrever os pensamentos negativos num papel e rasgá-lo.
  7. Ouvir músicas relaxantes.
  8. Praticar técnicas de meditação.
  9. Apertar uma bola antiestresse, fazendo do objeto uma alternativa para obter alívio e se distrair das emoções turbulentas.
  10. Sair para dar uma caminhada.

Essas técnicas servem para distrair a atenção e evitar que o gatilho da automutilação tome conta da mente, impondo-se como única alternativa viável.

Quanto mais a pessoa entender o que funciona para acalmá-la, melhor poderá investir em estratégias funcionais para sua situação.

Recursos adicionais: livros que abordam automutilação

Os livros listados abaixo apresentam diferentes perspectivas sobre a questão da automutilação.

Para você ter uma ideia do conteúdo das obras, indicamos um trecho da sinopse de cada título, disponível nos sites das respectivas editoras:

1. Como lidar com a automutilação

Guia prático para familiares, professores e jovens que lidam com o problema da automutilação.

Organizado por Eduardo Wagner Aratangy. Editora Hogrefe.

“Frequentemente confundida com tentativa de suicídio, a automutilação é um comportamento desenvolvido principalmente pelo adolescente como maneira de aliviar seu sofrimento psicológico.

(…)

Este guia traz informações sobre os grupos de risco, os motivos que levam o paciente a se automutilar, sobre como identificar o problema, como abordar o paciente que sofre de automutilação e como realizar o tratamento desse comportamento.

Voltado principalmente para pais e professores, este guia também é indicado para adolescentes, jovens, adultos e todos que estejam passando pelo problema e precisem de ajuda. Há instruções práticas e direcionadas para a abordagem e a resolução desse problema, que ainda é tabu em todo o mundo, mas que apresenta número alarmante de praticantes nas estatísticas.”

2. Sua voz dentro de mim

Por Emma Forrest. Editora Rocco.

“Aos 22 anos, a jornalista, escritora e roteirista Emma Forrest parecia levar uma vida maravilhosa: havia deixado a casa dos pais em Londres, cidade onde foi criada, para morar em Nova York, tinha um contrato com o jornal The Guardian e estava prestes a publicar seu primeiro livro. Mas, por trás da aparência bem-sucedida, havia uma jovem com sérios problemas psiquiátricos, que se cortava com gilete, sofria de bulimia e era extremamente autodestrutiva. Em Sua voz dentro de mim, Emma apresenta suas memórias, sem medo de expor o lado mais escuro que guarda dentro de si.

(…)

Apesar de toda a dor e do mergulho profundo na depressão e na autodestruição que permeiam o livro, Emma Forrest consegue explorar a beleza do amor e falar de superação ao longo das páginas. De quebra, ela ainda faz refletir sobre a relação que temos com nós mesmos.”

3. Automutilação na adolescência: corpo atacado, corpo marcado

Por Aline Gonçalves Demantova. Editora CRV.

“O presente trabalho busca contribuir para o estudo teórico-clínico da automutilação na adolescência, investigando a peculiaridade do recurso à escarificação, ato em que o sujeito inflige a si mesmo cortes na superfície de seu corpo. Essa modalidade de automutilação corporal traz à tona a evocação de um sensorial do corpo e a inscrição de uma marca na superfície deste, gerando, assim, uma cicatriz. A autora questiona de que forma a produção dessa marca no corpo se relaciona com a dimensão do traumático, dimensão de especial relevo na experiência subjetiva da adolescência.”

4. Garota em pedaços: um romance

Por Kathleen Glasgow. Editora Outro Planeta.

“Numa história de superação, Charlotte Davis perde o pai e a melhor amiga, precisando lidar a dor e com as consequências do Transtorno do Controle do Impulso — um distúrbio que leva as pessoas a se automutilarem.

(…) Cansada de se alimentar do sofrimento, a jovem se imbui de uma enorme força de vontade e decide viver e não mais sobreviver. Para fugir do círculo vicioso da dor, Charlotte usa seu talento para o desenho e foca em algo produtivo, embarcando de cabeça no mundo das artes. Esse é o caminho que ela traça em busca da cura para as feridas deixadas por suas perdas e os cortes profundos e reais que imprimiu em seu corpo.

Romance de estreia de Katlheen Glasgow, que figurou na lista dos mais vendidos do jornal The New York Times e dos melhores livros do ano de 2016 da Amazon (EUA) e da revista TeenVogue. Nele, os leitores vão se emocionar e se inspirar na história da adolescente de 17 anos que, por conta de sofrer de Transtorno do Controle do Impulso, pratica o ‘cutting’ — um distúrbio que afeta um grande número de jovens brasileiros e também personalidades do universo teen, como Demi Lovato e Britney Spears, entre outras.”

5. ABCD das escolas: automutilação, bullying, conectividade, depressão

Por Law Araújo. Editora CRV.

“O processo do bullying na escola não pode ser ignorado ou sentenciado a meras brincadeiras entre estudantes. Primeiro porque não é uma ação divertida. Ele desencadeia diversos problemas por tamanha a sua violência como a automutilação, a depressão e o isolamento virtual.”

6. Cortes & cartas: estudos sobre automutilação

Por Juliana Falcão. Editora Appris.

“Para Juliana Falcão, a automutilação é uma forma de escrita que se faz no corpo. Escrita que é, muitas vezes, corte na pele, incisão. Como explica a autora, a palavra cortador — tradução direta do termo cutter, em inglês, que se refere àqueles que se automutilam por meio de cortes — pode ser lida também como corta-dor, incutindo aí a possibilidade de compreensão da automutilação como um meio para diminuir o sofrimento. É o corte que corta a dor, enquanto gesto que inflige dor física para fazer parar a dor psíquica.”


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Clinica de Psicologia Nodari

Clínica de Psicologia Especializada em Terapia Cognitivo Comportamental.

Está localizada na Vila Mariana/SP

2Comentários

  • Jesilene
    24/11/2021

    Aranha a pele do rosto constante e da cabeça também

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    • luciane
      25/11/2021

      Oi Jesilene!
      Desculpe, não entendi seu comentário… Você gostaria de fazer uma pergunta?
      Se puder, me explique um pouco melhor sua dúvida para que possa tentar te ajudar melhor, ok?
      Abraço!

      Reply

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