Blog

Post

Tripofobia: o “medo de buracos”

Tripofobia: o “medo de buracos”

O que é tripofobia? Quais suas causas? Sintomas? Gatilhos? Há um teste para detectar a fobia? Descubra, neste texto, tudo sobre o curioso “medo de buracos”.


Índice


O que é tripofobia?

Tripofobia é o termo utilizado para descrever um transtorno psicológico, caracterizado por reações de medo, repulsa e ansiedade diante de agrupamentos de pequenos orifícios ou padrões irregulares (de formato semelhante ou idêntico a círculos).

A origem da palavra deriva do grego: trýpa (“buraco” ou “perfuração”) e phóbos (“medo”).

Sempre que nos referimos a um tipo de fobia, o ponto central é o caráter excessivo, desproporcional ou irracional que a sensação de medo adquire.

Ou seja, uma pessoa que tem fobia de buracos expressa aversão incomum a imagens com padrões circulares. Não porque esses padrões representem perigo real. Mas porque existe uma associação inconsciente, que atribui aos buracos um sentido de ameaça.

Uma ameaça imperceptível e incoerente, para todos que não partilham da condição.

Tripofobia é um transtorno de saúde mental?

A tripofobia não é reconhecida pela atual versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), da Associação Americana de Psiquiatria (APA). Isso significa que o medo de buracos não é “oficialmente” considerado um distúrbio mental.

No entanto, existem estudos — publicados em periódicos como Psychological Science e Quarterly Journal of Experimental Psychology — cujos dados sugerem que a tripofobia é experimentada, em algum grau, por cerca de 16% da população.

No artigo Trypophobia: an investigation of clinical features (Tripofobia: uma investigação de características clínicas), os pesquisadores Michelle Vlok-Barnard e Dan J. Stein comentam que, embora ainda pouco presente em estudos clínicos, o “medo de buracos” parece relativamente comum. E foi a internet, com seus recursos que permitem a popularização de discussões, que evidencio esse fato:

“A tripofobia refere-se a um medo patológico ou aversão a aglomerados de objetos côncavos (buracos) ou objetos que lembram aglomerados de buracos. 
Os indivíduos relatam uma resposta fóbica ou aversiva a tais estímulos, que vão desde as marcas visuais de peixes venenosos até imagens aparentemente inócuas, como condensação de água, colmeias, esponjas marinhas e vagens. Indivíduos com tripofobia relatam que a qualidade visual e as propriedades espaciais de tais estímulos desencadeiam desconforto. (…) 
Por um lado, esse conjunto de sintomas parece ser incomum, talvez raramente encontrado pelo clínico. 
No entanto, com o surgimento da internet e grupos de apoio virtuais, e a capacidade de mais pessoas compartilharem informações sobre suas preocupações e medos, podemos concluir que, provavelmente, a tripofobia não é um fenômeno incomum.
Com o crescimento do compartilhamento de imagens online, um número considerável de indivíduos percebeu que compartilha uma repulsa por fotografias de aglomerados de buracos — uma repulsa que pode atingir o nível de náusea significativa.
Existem vários grupos de apoio à tripofobia na internet… [nos quais] pessoas forneceram depoimentos e compartilharam suas experiências de viver com o medo ou aversão a aglomerados de objetos côncavos.
Os indivíduos descrevem essas imagens como assustadoras e evocadoras de medo, ataques de pânico, repulsa e angústia, bem como uma ampla variedade de sintomas somáticos, como náusea, arrepios e coceira.”*

Quais são as causas da tripofobia?

Não existem certezas a esse respeito, mas algumas hipóteses são pontuadas.

Uma das teorias mais debatidas diz respeito às causas de cunho evolucionário.

Segundo essa linha de pesquisa, o repúdio aos buracos e demais padrões circulares consiste numa resposta a estímulos que lembrem sinais de doenças infecciosas (como catapora, sarampo e escarlatina) ou presença de parasitas.

Manter distância desses indícios seria, portanto, um reflexo exagerado e generalizado de um recurso desenvolvido por nossos ancestrais, no intuito de garantirem a sobrevivência.

Os psicólogos Arnold Wilkins e Geoff Cole seguem um raciocínio similar, propondo que a tripofobia é um vestígio do instinto de evitar animais perigosos (como cobras, jacarés, aranhas, insetos e sapos venenosos).

Quem sofre com o transtorno estaria esboçando uma associação inconsciente, transferindo às imagens e objetos inofensivos a cautela apreendida.

Em paralelo a essas argumentações, vale pontuar a tese defendida por Arnold J. Wilkins e Paul Hibbard. De acordo com os autores, a aversão ocorre porque os padrões apresentam propriedades matemáticas.

Esses, por sua vez, não são processados de modo eficiente pelo cérebro, exigindo oxigenação acima do normal. Logo, o desconforto visual seria uma sensação intrínseca ao ser humano.

Quais são os principais gatilhos da tripofobia?

Medo de buraco - tripofobia
A aversão aos pequenos buracos pode aparecer diante dos mais variados objetos. A configuração das 3 câmeras do iPhone 11, por exemplo, foi apontada como gatilho de desconforto visual por tripofóbicos

De forma geral, tais gatilhos referem-se a imagens que apresentam uma soma de buracos, perfurações, pontos, bolhas, manchas ou protuberâncias. Como exemplos, podemos mencionar:

  • vagens de sementes da flor-de-lótus;
  • verrugas em grande quantidade na pele humana;
  • kiwis fatiados;
  • morangos;
  • esponjas;
  • céu da boca (palato) coberto por dentes;
  • favos de mel;
  • bolhas de sabão;
  • espuma de café;
  • poros da pele;
  • escumadeira;
  • chocolate aerado;
  • aglomerados de olhos e rostos humanos;
  • padrões pontilhados;
  • corais;
  • condensação de água;
  • folículos capilares;
  • imagens em alto relevo da pele humana;
  • colmeias;
  • tubos empilhados, vistos de frente;
  • romãs;
  • queijo suíço;
  • manchas/padrões na pele ou pelo de animais;
  • aglomerados de olhos em insetos;
  • chuveiros;
  • plástico bolha.

Quais são os sintomas da tripofobia?

Além do medo irracional, aversão e nojo, é comum que tripofóbico experimente outras reações, que incluem:

  • náuseas;
  • vômito;
  • arrepios;
  • sudorese;
  • respiração ofegante;
  • falta de ar;
  • choro;
  • tremores;
  • tontura;
  • esquiva fóbica (fechar os olhos ou cobrir, com as mãos, a imagem contendo buracos, para não visualizá-la);
  • batimentos cardíacos acelerados;
  • desconforto visual (fadiga ocular, distorções ou ilusões);
  • dores de cabeça;
  • mãos úmidas;
  • inquietação;
  • ansiedade;
  • desmaio;
  • ataques de pânico.

Os pesquisadores Tom R. Kupfer e An T. D. Le, autores do estudo Disgusting clusters: trypophobia as an overgeneralised disease avoidance response (Aglomerados nojentos: tripofobia como uma resposta supergeneralizada de prevenção de doenças) acrescentam:

“Além de sentimentos prototípicos relacionados ao nojo como náuseas, muitos indivíduos tripofóbicos descreveram sentir sensações desagradáveis ​​na pele, como pele formigando, coceira na pele e até mesmo a sensação de ‘insetos’ infestando a pele.”*

Certos comportamentos também podem ser adotados pelas pessoas que sofrem com a fobia de buracos, com objetivo de se esquivar do mal-estar.

Por exemplo:

  • rejeitar alimentos com os padrões que despertam repulsa;
  • sair de ambientes onde a decoração envolva motivos pontilhados;
  • evitar roupas e objetos com estampas que remetam aos agrupamentos desencadeadores dos sintomas.

Há um teste de tripofobia?

O teste para saber se você sofre de tripofobia consiste, essencialmente, na exposição a imagens de aglomerados de círculos, furos e buracos. É a intensidade de suas reações que sugere o indício da fobia.

Existem alguns testes disponíveis online, tais como o Implicit Trypophobia Measure — que visa reunir dados para pesquisas.

Ao optar por fazer um autoteste, saiba que sentir um pouco de desconforto é normal, mesmo para aqueles que não são tripofóbicos.

Porém, se as sensações que te ocorrem forem muito angustiantes, é preferível que você interrompa a visualização das imagens.

Existe cura para a tripofobia?

O tratamento para o “medo de buracos” é o mesmo recomendado para outros tipos de fobia. A gravidade dos sintomas é que determinará a abordagem mais sensata.

Ou seja, quando o incômodo não traz prejuízos significativos à qualidade de vida, não é necessário buscar ajuda especializada.

Uma sugestão, nesses casos, é visualizar várias imagens acionadoras, a fim de acostumar-se com elas e criar tolerância.

Como um auxílio extra, você pode experimentar técnicas de respiração profunda e relaxamento, para distrair a mente e controlar as reações do corpo.

Afinal, se não é possível excluir, definitivamente, do campo de visão esse tipo de imagem, o mais oportuno é encontrar estratégias de enfrentamento.

Porém, nem sempre essas táticas de autoajuda são suficientes.

Há circunstâncias nas quais o tripofóbico enfrenta sintomas mais intensos e sua capacidade de autocontrole se mostra bastante comprometida.

O ideal, então, é procurar por um psicólogo.

Geralmente, o profissional conduz o tratamento propondo gradual observação de figuras associadas ao medo — processo denominado terapia de exposição — ou opta por terapia cognitivo comportamental (TCC) — que investiga padrões de comportamentos e pensamentos, buscando interrompê-los e transformá-los em reações positivas.

Em situações específicas, o uso de medicamentos (antidepressivos ou ansiolíticos) pode ser recomendado por um psiquiatra.

Essa abordagem é útil quando se verifica que, além da tripofobia, o indivíduo sofre com outros distúrbios mentais, como:

Ainda tem alguma dúvida sobre a tripofobia ou curiosidade sobre outro tipo de medo? Então deixe suas perguntas ou sugestões nos comentários!

* Tradução nossa.

Clínica de Psicologia Nodari
Especializada em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
Atendimentos Particulares em Psicoterapia e Avaliação Neuropsicológica

Está localizada na Vila Mariana, São Paulo/SP
11 99725-4565

Comentários

Resposta de 0

  1. Minha fobia é muito forte
    Só ver enxame de abelhas, formigueiros, buracos agrupados, td que fica juntinho me dá náusea arrepio, tremor , angústia em algumas vezes dependendo da imagem eu choro …

    1. Além de buscar mais leituras sobre o assunto (obtendo dicas e orientações para lidar com o problema), considere fazer terapia! Pode ser muito útil para você.

  2. Repulsa, agitação, angústia,coceira, formigamento, sensação de insetos na pele,ansiedade, são sintomas que sinto ao ver buracos, círculos…

    1. Olá, Dallas!
      A terapia é bastante eficaz no tratamento de fobias.
      Considere procurar um psicólogo para obter ajuda!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Clínica de Psicologia Nodari

Nosso blog tem como objetivo trazer textos dicas, ferramentas, informações, enfim, conteúdos que acreditamos que possam ajudar as pessoas a melhorar o seu bem-estar e qualidade de vida. Além de refletir a importância da psicoeducação no processo terapêutico.

Oferecemos atendimentos psicológicos em:

  • Psicoterapia - Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) e
  • Avaliações Neuropsicológicas.
  • Outros Posts

    plugins premium WordPress